quarta-feira, 4 de maio de 2011

Robert Johnson: Eu e o Diabo Que Me Carregue - Por Márcio Ribeiro


A política deste blog é publicar apenas matérias originais. Mas, devido ao alto nível de informação contidos neste artigo de um dos mais enigmáticos músicos de blues, resolvemos fazer uma importante exceção para este texto originalmente publicado no site www.whiplah.net. Sei que nossos leitores ficarão satisfeito com o artigo assim como nós da sociedade ficamos. Abraços e boa leitura!
Robert Johnson
E assim conta a lenda... Em uma noite sem lua, após um dia comum, um negro jovem chamado Robert Johnson aguarda calado, com seu violão em mãos, junto a uma encruzilhada em Dockery’s Plantation, em Mississippi. Quando deu meia noite, um homem aparece descendo a rua em direção ao cruzamento. Robert começa então a tocar seu violão da melhor maneira possivel, porém o pobre rapaz é tão fraco, que dá até dó de se ouvir. O homem ao se aproximar estende a sua mão, como quem pede que o violão seja lhe entregue. Com mãos trêmulas e suando frio, Robert lhe passa o instrumento, e esse homem misterioso então passa a afiná-lo.
Quando satisfeito com a afinação encontrada, o homem começa a tocar algumas canções. Em dado momento, sem mais nem porque, ele pára de tocar. Olha para o jovem a sua frente com um sorriso repleto de satisfação, e lhe devolve o instrumento agora ‘afinado’. Robert Johnson então começa a tocar, e o faz agora com uma extrema facilidade que nunca lhe foi possível. E doravante, todos aqueles que o escutam, ficam imediatamente encantados pela sua música. Robert Johnson acaba de vender sua alma pro diabo em troca da fama de ser o melhor instrumentista que se tem noticia.
É uma estória que cruza elementos de Faust com O Flautista Mágico (aquele que se livrou dos ratos de um vilarejo encantando os roedores maléficos ao tocar sua flauta).
Muddy Waters conta que a única vez que viu Robert Johnson foi em Friars Point, Mississippi, em frente à drogaria local chamada Hirsberg’s Drugstore. Os pedestres lhe cercaram para ouvir e Muddy Waters, então com quase vinte anos de idade, se meteu lá no meio tambem. Contudo, Waters conta, Robert Johnson tocava o violão com tamanha ferocidade e maestria, que ele ficou extremamente intimidado por este bluesman mais velho, e logo foi embora.
Eu tenho ouvido muito blues esses dias; em particular Robert Johnson. No meu entender, Robert Johnson é o nome mais famoso dentro do gênero blues, mais graças à sua lenda de ter vendido a sua alma pro diabo do que pelas proezas registradas em suas gravações que, por sinal, até os anos noventa, eram dificílimas de serem encontradas, portanto até quem se interessava encontrava dificuldades em achar para ouvir. Eu estava na escola quando ouvi o nome de Robert Johnson pela primeira vez. Era aula de música e quanto a biografia deste músico, o professor sabia o mesmo que aparentemente todo mundo sabia, ou seja, só a lenda. E a minha turma da sétima série colegial ouvia com curiosidade juvenil o professor contar que "Após vender sua alma pro diabo, Robert Johnson passou a encantar o povo da região do delta do Mississippi tocando e cantando suas músicas. A outra fama desse homem era de que ele era extremamente mulherengo. Fato que o levou a ser morto; ou por um marido enciumado, ou mulher enciumada; que o matou ou a bala, a faca, ou possivelmente envenenado. Enfim, ninguém sabe ao certo."
Imaginem o fascínio que tais imagens podem criar em uma audiência tão jovem. E mesmo depois de adulto, continuava sendo essencialmente essa estória a única informação básica que se encontrava sobre este homem. Hoje em dia, certamente dada a facilidade com que informação se espalha geograficamente através da internet, já se sabem fatos mais concretos sobre quem era o homem Robert Johnson. Documentos como duas certidões de casamentos, alguns registros escolares, um atestado de óbito e alguns poucos memorandos de uma gravadora já foram encontrados. Procurou-se parentes vivos, vizinhos e músicos que os conheciam, tendo os seus testemunhos gravados ou anotados. Tudo para tentar-se compreender mais sobre o homem atrás do mito. Contudo, como Johnson viveu uma vida andarilha solitária, é impossivel saber com exatidão tudo que ele fez e todos os lugares por onde ele andou.
Fui direto ao Google vasculhando pela web buscando informações sobre o homem versus a lenda e o que achei de melhor foi um texto no Wikipedia escrito em inglês. A versão em português, no meu entender, se prende mais sobre os feitos do músico do que do homem. Achei que faltava na grande rede um texto em português mais completo como existe em inglês. Juntei informações essencialmente de dois textos encontrados na grande rede, verifiquei detalhes sobre certas informações em diversos sites diferentes e, com base nessas anotações, comecei então a escrever. Este texto que você lê aqui e agora não pretende ser a última palavra sobre a vida de Robert Johnson. Procura apenas contar um pouco mais sobre a sua história em um texto em português.
E tratando-se de um personagem com uma vida tão desassosegada como a de Robert Johnson; não é que tudo começou com uma tremenda briga…
Era uma vez um negro forte e inteligente chamado Charles Dobbs, nascido em fevereiro de 1865; apenas dias depois do Congresso Americano autorizar o anexo à Constituição que tornava lei a abolição da escravatura nos Estados Unidos (argumenta-se que sistemas de trabalho forçado praticados contra negros persistiram e eram na prática formas de escravidão em tudo menos no nome, mantendo-se em exercício principalmente no estado de Alabama até 30 de junho de 1928). Dobbs era um carpinteiro habilidoso, começando a vida ganhando dinheiro fazendo, montando e vendendo móveis. Com a devida disposição para trabalhar duro e tendo bons instintos e bom senso com dinheiro, conseguiu se tornar dono de terras em Hazelhurst, no condado de Copiah, no estado de Mississippi. Dobbs passou então a trabalhar na sua plantação de algodão e mantê-la lucrativa.
Em 1889, casou-se com a jovem e bela Julia Ann Majors, onze anos mais nova, e com ela teve dez filhos; oito meninos e duas meninas, que invariavelmente o ajudavam trabalhando e mantendo a fazenda produtiva. Seu sucesso e prosperidade como fazendeiro incomodava outros fazendeiros da região, muitos deles antigos donos de escravos. Portanto, deduza-se que a relação com a vizinhança e/ou concorrência, dependendo de como quiser ver a questão, não era das mais harmoniosas para o Sr. Charles Dobbs. De fato, em uma briga com outro fazendeiro, esse um homem branco, que ocorreu provavelmente por volta de 1907, o Sr. Dobbs deu uma surra em seu oponente, supostamente o ferindo bastante. Isso criou uma situação difícil pro Sr. Dobbs que teve que sair fugido de Hazelhurst para nao acabar linchado e enforcado em uma árvore.
Robert Johnson
Charles Dobbs sumiu da região, seguindo para o norte e se instalando em Memphis no estado de Tennessee, utilizando agora o nome de Charles Spencer. Sua esposa, Julia Major Dobbs ficou em Hazelhurst, e, no espaço de tempo de aproximadamente dois anos, mandou um a um os oito filhos para Memphis morar e trabalhar com o pai, ficando ela com as duas filhas. Agora vivendo vidas separadas, Charles passou a morar com uma outra mulher e Julia, igualmente, passou a morar com um outro homem; esse, chamado Noah Johnson que trabalhava nas lavouras da região como mão-de-obra. Com Noah, Julia teve mais um outro filho homem que foi chamado de Robert Leroy Johnson.
Pesquisadores em geral elegeram a data de 08 de maio de 1911 como a data de nascimento de Robert Johnson, porém a verdade é que ninguém sabe com certeza absoluta. Embora a data de 08 de maio seja reincidente em mais de um documento e portanto parece ser mais segura, a dúvida reside no ano. Não se encontra sua certidão de nascimento e cogita-se que ele possa nunca ter tido uma.
A verdade é que não era incomum para a época, considerando o nível de pobreza da região no chamado cinturão de algodão, o pior do país, criança nascer e ser registrada com data errada um ou dois anos depois do fato. Em termos de documentos, o que se encontrou foi a data de seu nascimento segundo o registro na escola primária, certidão de seu casamento e sua idade no atestado de óbito. Acontece que cada um destes documentos oferecem um ano diferente. Expecula-se que Robert Johnson pode ter nascido entre 1909 e 1912. Porém o consenso é de que provavelmente foi em 1911.
Em 1914, Julia, já sem a companhia de Noah Johnson, se muda com as duas filhas e o pequeno Robert para Memphis indo morar novamente com seu marido Charles Dobbs, agora Charles Spencer; reunindo-se novamente com seus oito meninos. Na casa também morava a amante de Charles e os dois filhos que ele teve com ela. Segundo consta, todos se davam bem, porém obviamente Julia não ficou por muito tempo, se mudando logo dali deixando todas as suas crianças, incluindo o pequeno Robert para ser criado por Charles. Ao que se saiba, Charles teve problemas em lidar com este seu novo filho-de-criação, vendo Robert Johnson, que passou a ser conhecido como Robert Spencer, como um menino pouco disciplinado.
Levaria outros dois anos até Julia reaparecer em Memphis. Veio precisando da permissão de Charles para poder se casar novamente; agora com um jovem rapaz vinte e quarto anos mais novo do que ela chamado Willie ‘Dusty’ Willis. Pouco depois, Robert foi viver com o novo casal. Moravam inicialmente em uma favela chamada Commerce, que fazia parte da Leatherman Plantation, perto de Robinsonville em Mississippi. Lá, Robert passava a ser conhecido como Little Robert Dusty pela vizinhança. Porém quando foi matriculado na Indian Creek School na cidade de Tunica, Arkansas, no ano de 1919, seu nome constava como sendo Robert Spencer. A essa altura, o casal Willie e Julia mais o pequeno Robert fixam-se em Lucas, ainda em Arkansas, vivendo como a maioria, basicamente do trabalho na lavoura.
Em tempo, Julia ficaria grávida novamente e teria uma filha com Dusty. Ao que parece, não se encontram registros escolares de Robert entre os anos de 1925 e 1926, o que reforça a teoria de que aos quatorze anos ele fora mandado de volta para a casa de Charles Spencer em Memphis. Charles coloca o garoto para trabalhar na plantação, tentando entre outras coisas, passar para o filho-de-criação noções sobre o valor de se trabalhar duro para poder colocar comida na mesa. Spencer porém se frustava com o garoto pois Robert pouco interesse mostrou pela vida dura na lavoura colhendo algodão. Johnson passava a maior parte do seu tempo tocando gaita, instrumento que ele aprendeu a dominar relativamente bem. O adolescente Robert Johnson, com gaita na mão, instintivamente vê a música como o seu único caminho para fugir da vida no campo. Retornando à casa da mãe em 1927, novamente na região de Robinsonville no Mississippi, Robert compra o seu primeiro violão. Se esforça para conseguir aprender a tocar o instrumento direito, mas segundo o que se comenta, o jovem era ruim ao ponto de incomodar os vizinhos.
Desde muito cedo, em parte por conta de sua situação de filho bastardo, Robert teve que se passar usando vários nomes diferentes. Vão desde Robert Spencer, Robert Dobbs, Robert Dusty; e depois já como andarilho, dependendo da amante e da região, Robert Moore, Robert Barstow e até Robert James. Essas variações de identidade fazem com que fique ainda mais dificil mapear as andanças do músico. Especula-se que por idolatria a Lonnie Johnson, Robert passaria a se apresentar como sendo Robert Lonnie – um dos irmãos Johnson (Lonnie Johnson tinha onze irmãos); até que, já ao fim dos dezoito anos, finalmente passou a usar o seu verdadeiro nome, Robert Johnson.
Negro bonito, porém tímido, aos dezoito anos se apaixona por Virginia Travis de desesseis anos, casando com ela em 16 de fevereiro de 1929. Sem teto próprio, o jovem casal passa a morar com a meia-irmã mais velha, Carrie Dobbs. Seu coração continuava na música e qualquer tempo livre que tinha, estava ele cantando e arranhando no seu violão. Porem, pelos proximos dois anos, Robert Johnson era essencialmente um fazendeiro, trabalhando duro no campo colhendo algodão. Em agosto de 1929 sua mulher Virginia ficou grávida, notícia que traz muita felicidade para a vida de Robert. Porém a tragédia estava a espreita e no dia 10 de abril de 1930, tanto Virginia quanto a criança morrem durante o parto. A familia de Virginia Travis culpa Robert, acusando o seu gosto por cantar canções seculares (profanas) como sendo uma provocacão a Deus passível a esse tipo de castigo divino, que na cultura da região é descrito como ‘vender a alma para o Diabo’. E Robert, abatido e tristonho, aparentemente aceitou a acusação e a culpa, sem negar.
É depois desta tragédia que Robert passa a deixar o trabalho no campo de lado, e passa a investir em ser músico em tempo integral, frequentando bares e inferninhos, buscando observar e aprender a tocar melhor o violão. Porém Robert, que praticamente abandona por completo a gaita, é ainda muito fraco como instrumentista para conseguir ganhar dinheiro. Procurou um respeitado bluesman que morava em Robinsonville chamado Willie Brown e esse lhe abre os ouvidos para o blues de Charley Patton, o maior nome do delta Blues da época. Por coincidência, justamente nesse periodo, o já conhecido e respeitado bluesman Son House, recém saído da famosa penitenciária Parchman Farm, aparece na cidade para se alojar com o seu amigo Willie Brown. Robert procura forjar amizade e frequenta todas as apresentações da dupla Son House e Willie Brown, se convidando a tocar com eles mas sendo seguidamente recusado.
Johnson busca aprender tudo que puder vendo o mestre e de início, Son House até mostra paciência com o rapaz e chega a chamá-lo de um bom menino, porém músico fraco demais para acompanhá-los. Pelo que se conta, Johnson persiste em tentar convencer Son House a lhe dar aulas, porém o resultado é que House se irrita com o garoto arranhando as cordas tão grosseiramente, e o rotula de caso perdido e põe o rapaz pra correr. Robert Johnson, vendo que não tinha mais como aprender com Son House ou Willie Brown, acaba por deixar Robinsonville por completo, perambulando pelas estradas vizinhas.
Robert Johnson e Johnny Shines
Sem ninguém prever, muito menos ele mesmo, Robert Johnson dá seus primeiros passos em direção ao tipo de vida andarilha que para sempre será associado a seu nome e sua imagem. Ele só retornaria a Robinsonville novamente dentro de aproximadamente dois anos, já executando com maestria músicas no seu violão. Não por coincidência, segundo a lenda, é nesse ínterim que Robert Johnson teria vendido sua alma pro Diabo. Pelo o que se sabe, Johnson teria primeiro caminhado pro sul perambulado pelas cercanias de Hazelhurst onde nasceu, supostamente a procura de Noah Johnson, seu verdadeiro pai. Não se sabe se ele o encontrou, porém Robert definitivamente encontrou o que ele mais precisava naquele ponto e sua vida; ou seja, alguém que lhe dedicaria o devido tempo para ensiná-lo a melhorar como instrumentista.
Passando por Crystal Springs, cidade vizinha a Hazelhurst, Robert Johnson conhece e faz amizade com Tommy Johnson, outro bluesman de expressão que já tinha gravado um número de discos e sendo conhecido por suas acrobacias com o instrumento; como tocar seu violão entre as pernas ou por detrás da cabeça. Agora, com a queda da Bolsa de Valores e o inicio da Grande Depressão, os convites para gravar discos secaram, o que faz Tommy Johnson retornar a sua terra natal em Crystal Springs. Ele vive agora catando algodão durante época de colheita e tocando ao vivo pela vizinhança à noite nos fins-de-semana. Tommy Johnson também é notório por dizer que negociou sua alma com o velho Scratch (o diabo) na encruzilhada perto de uma das plantações de algodão da Dockery Farms.
Segundo se especula, foi Tommy Johnson quem ensinou Robert Johnson como e onde fazer o seu famoso pacto. O que se verifica é que, andando sozinho pelas estradas do mundo, indo e vindo de espeluncas freqüentadas por todo tipo de gente, ser conhecido por ter o Diabo como seu benfeitor lhe dá um certo senso de proteção. Superstição ainda faz uma grande parte da cultura geral da época e um rufião de maus intentos, é mais apto a evitar se meter com você se todos acreditam que ele é um protegido de Satanás. Essa mentalidade, e no caso, o raciocínio por detrás dela, provavelmente foi passado a Robert por Tommy, e ajuda a explicar porque Robert Johnson nunca fez nenhuma objeção contra a acusação dele fazer um pacto com o mal. Muito pelo contrário, compôs canções como "Me And The Devil" que ajudaram a concretizar tal suposição.
Tommy Johnson o leva a Martinsville para lhe apresentar aos irmãos Ike e Herman Zimmerman, ambos tidos como bons instrumentistas. Robert Johnson acabaria se instalando em Martinsville, onde Ike passa a levá-lo quase toda noite para o cemitério onde juntos, tocam até altas horas da noite sem ouvir reclamação de ninguém. Dentro desses quase dois anos residindo em Martinsville, Robert engravida uma menina chamada Vergie Mae Smith e mais tarde, casa em maio de 1931, com Caletta Craft, uma senhora de trinta e poucos anos, cerca de dez anos mais velha do que ele e mãe de três crianças pequenas. Calle, como era chamada, seria o protótipo da mulher que Johnson geralmente almeja para relacionamentos. Mulheres que não eram feias, porém não muito vistosas, portanto sem muita concorrência, a quem ele oferece sua atenção e carinho e elas dão casa, comida e roupa lavada. Em alguns casos, até uns trocados também. Johnson se mudaria para Clarksdale com Calle e suas crianças em 1932; porém o relacionamento desanda e quando ela fica doente, ele pega o violão e a estrada, efetivamente abandonando-a. Robert Johnson nunca mais ficará vivendo no mesmo lugar por muito tempo.
Fala-se que o poder de Robert Johnson de absorver a técnica e estilo de quem ele observa era impressionante. Supostamente, Robert aprende de você e depois acaba tocando o seu estilo melhor do que você. Nao há registros sonoros de Ike Zimmerman para poder-se determinar quão evoluido no instrumento ele realmente era para poder ensinar Robert Johnson a tocar como ele passou a tocar. Todavia, o fato é que, quando Robert Johnson retorna para Robinsonville em meados de 1932, ele já é um músico muito superior do que quando deixou o lugar em 1930. Ele reencontrou com a dupla Son House e Willie Brown em Banks, Mississippi. Dessa vez porém, segundo o que se conta, quando Johnson tocou para o povo local, Son House e Willie Brown ficaram de queixo caído. A ele finalmente foi permitido tocar com o duo, o trio tocando juntos nas redondezas e depois viajando juntos até Memphis, Tennessee. Son House em entrevista teria dito categoricamente que Robert Johnson se mostrava muito mais evoluido no instrumento do que ele mesmo. E que a única maneira que se explica de alguem passar de tão medíocre a tamanha maestria em tão pouco tempo, é se ele foi para a encruzilhada vender a alma pro Demônio. E assim o boato se espalhou.
Deste ponto da história, conseguir mapear os caminhos de Robert Johnson com exatidão torna-se impossível. Sabe-se que ele deixou o Delta e rodou caroneando via trem, carro ou caminhão pelos centros e cidadezinhas do Mississippi e Alabama. Johnson encontra e faz amizade com Johnny Shines, esse ainda menino sonhando em conhecer o mundo tocando blues. De tanta admiração pela capacidade musical de Johnson, Shines passa a segui-lo pela estrada na medida que Johnson permitia. Shines confirma que, com Robert Johnson, ambos tocaram em cidades ainda mais distantes chegando a Chicago, Detroit e até atravessando a fronteira indo parar em Windsor, Ontario, no Canadá. Retornam aos Estados Unidos seguindo leste até parar em Nova York.
Enquanto em Detroit, Robert Johnson e Johnny Shines participam como duo tocando no programa de rádio local The Elder Moton Hour em 1937. Embora essencialmente um artista solo, no sentido mais simples do termo, Robert Johnson também se apresentou junto com outros músicos como Willie Borum em Memphis no estado de Tennessee (1932); Henry Townsend em St. Louis no estado de Missouri (1935); e com Johnny Shines viajou por todos os estados paralelos ao Rio Mississippi chegando até o Canadá e depois seguiu leste até a costa durante os anos de 1934 e 1937. Tocou em uma variação de formações com um grupo de bluesmen compostos por Alex Miller (Sonny Boy Williamson II), Howlin’ Wolf e Elmore James, em várias cidades espalhadas pelo estado de Mississippi entre 1937 e 1938; e com David ‘Honeyboy’ Edwards em Mississippi em 1938.
Através de relatos, podemos concluir que Robert Johnson tenha tocado em lugares espalhados pelos estados de Mississippi, Tennesee, Arkansas, Texas, Kentucky, Indiana, Michigan, Missouri, Illinois, Ohio, New Jersey, e New York. É igualmente provável que Johnson também tenha passado por outros estados americanos, principalmente no sudeste como tambem no centroeste americano. Se especula que o mais longínquo que Robert Johnson tenha viajado seja até as duas Dakotas no meio-noroeste americano. Não há muitos que sugerem que Robert Johnson tenha ido parar na costa oeste, embora não se tem como saber com certeza.
Segundo Johnny Shines, Robert Johnson tinha uma capacidade ímpar de pegar e decodificar uma canção nova com apenas uma audição. Shines conta que certa vez estava conversando com Johnson em um local onde havia um rádio ligado e tocando ao fundo. A conversa continuou normalmente, porém mais tarde no mesmo dia, Shines repara em Robert tocando uma música que havia tocando no rádio durante o papo. Johnson aparentemente, sem deixar de participar da conversa, estava ao mesmo tempo ouvindo e estudando a canção no rádio. Shines tambem teria dito que poucos são aqueles que podem recordar ter visto Robert Johnson praticando o violão ou trabalhando uma canção. Shines, explicando como Johnson conseguia aprender repertório novo sem muito esforço, teria resumido a questão da seguinte maneira: “Assim como ninguém fala de um pato aprendendo a nadar, pois assim era com o Robert Johnson.”
Robert Johnson morou com uma mulher diferente em cada cidade por onde passou. Especula-se que embora ele não tenha feito familia no sentido mais básico da palavra, provavelmente teve um número grande de filhos ilegítimos espalhados de norte ao sul do rio Mississippi e além. Sabe-se também que na cidade de Helena, em Arkansas, Johnson ficava com Estella Coleman, que tinha um filho adolescente chamado Robert Lockwood. Johnson e Lockwood firmaram forte amizade, Lockwood sendo o único músico que se sabe a quem Robert Johnson procurou ensinar sua maneira de tocar. Johnson e Lockwood passariam a viajar e tocar juntos em pequenas temporadas mantendo-se dentro da região do Mississppi Delta. Entre idas e vindas de Robert Johnson, sozinho ou acompanhado, a relação de Johnson com Estella Coleman durou pelo menos cinco anos que se tenha notícia. Robert Lockwood depois passaria a adotar o nome Robert Jr. Lockwood por conta de seu afeto e admiração pelo seu padastro.
Mas na maior parte das vezes, Robert Johnson segue sozinho pelo mundo. Ele tocou em tudo que é lugar, desde casas noturnas propriamente ditas a puteiros de quinta categoria. Quando ele chegava em um local novo, sua tática era de logo procurar tocar em uma esquina perto do barbeiro local, farmácia, ou um restaurante de preço popular. Essencialmente pontos de uso essencial da comunidade. Outro detalhe que se sabe sobre o homem Robert Johnson é que ele tinha um dom natural de conversar com o povo local e com simpatia aliados à sua boa pinta, inevitavelmente consegue fazer amizade com alguém que o ajuda a se arranjar no local.
Robert Johnson
Tocava essencialmente por gorjetas nas ruas durante o dia e em inferninhos baratos à noite. Ele não se fixa em tocar só blues e sim qualquer coisa que possa agradar sua audiência imediata. Pelo que se sabe, Johnson não costumava tocar suas composições próprias, sua preocupação maior era fixada em entreter e assim, ganhar uns trocados. Segundo Johnny Shines, uma das composições próprias que Johnson gostava de tocar ao vivo com mais freqüência era "Come On In My Kitchen".
Sabe-se que Robert Johnson guardava com muito cuidado suas composições e era capaz de deixar um lugar de uma hora para outra se percebesse que havia alguém no público prestando excessiva atenção em como ele tocava. Nasce dessa paranoia seu hábito de tocar de lado, quase de costas para a plateia. E se ainda assim, ele sentisse a ameaça de alguém aprender demais assistindo-o tocar, Johnson se levantava e ia embora sem mais nem porque. Foi assim que Johnny Shines perdeu Johnson de vista. Ele simplesmente desceu do palco enquanto Shines terminava o resto do set e foi embora. Quando Shines deu conta, Johnson já tinha pego o primeiro trem cargueiro e seguido na direção que o trem o levasse.
Voltando ao que se sabe como certo, Robert Johnson querendo gravar um disco só seu, ficou sabendo que em Jackson, Mississippi, o dono da quitanda tambem trabalhava como olheiro de talentos e supostamente tinha contatos com alguma gravadora. Johnson procura o tal dono da quitanda, um homem chamado H. C. Spier que gostou do que ouviu e arrumou dele encontrar-se com Ernie Ornette, que igualmente ficou bem impressionado com Johnson e ofereceu de gravá-lo em San Antonio, Texas onde sua gravadora, a Brunswick Records, tinha um estúdio de gravação.
O tal estúdio de gravação na verdade eram dois quartos alugados pela Brunswick em um hotel. Num quarto ficava instalado o engenheiro de som e seu equipamento, mais o produtor das sessões, que no caso trata-se de Don Law. No outro quarto ficava o microfone e o talento a ser gravado. Robert Johnson receberia entre $10 a $15 dólares por canção e nenhum direito autoral.
Numa segunda-feira feia e de ventos forte, do dia 23 de novembro de 1936, no quarto 414 do Gunter Hotel, Robert Johnson grava "Kind Hearted Woman Blues", "(I Believe I’ll) Dust My Broom", "Sweet Home Chicago", "Rambling On My Mind", "When You Got A Good Friend", "Come On In My Kitchen", "Terraplane Blues" e "Phonograph Blues".
Ele retornaria para o mesmo local na quinta-feira, dia 26, gravando somente uma canção, a "32-20 Blues". Entre segunda e quinta, Robert Johnson seria preso por vadiagem e na delegacia apanha dos policiais e tem seu violão quebrado. Johnson dá o nome de Don Law como empregador que é contactado e, ao chegar na delegacia, confirma o status de músico pago pela sua gravadora conferido a Johnson. Law paga fiança e deixa Johnson no hotel onde o músico estava hospedado. Colorindo um pouco essa estória tem outra. Conta-se que mal Law chega em sua casa e recebe um telefonema de Johnson pedindo cinco centavos emprestados de adiantamento para completar os quarenta e cinco centavos que ele tinha, para poder pagar cinquenta centavos que era o valor que uma prostituta que ele arrumara no hotel estava cobrando.
Fechando a semana de trabalho, sexta-feira dia 27 de novembro de 1936, Robert Johnson retorna pela última vez ao quarto 414 do Gunter Hotel e grava "They´re Red Hot", "Dead Shrimp Blues", "Cross Road Blues", "Walking Blues", "Last Fair Deal Gone Down", "Preaching The Blues (Up Come The Devil)" e "If I Had Possession Over Judgement Day". Johnson gravaria dois takes de vários de seus números, deixando um interessante material de estúdio uma vez que depois dos anos noventa, todo este acervo ficara finalmente disponível no mercado.
Quase oito meses passariam até Johnson gravar uma segunda serie de sessões, dessa vez na cidade de Dallas, Texas, no Brunswick Record Building, que fica no sobrado de 508 Park Avenue. Dividido em duas sessões realizadas em junho de 1937, a primeira começando no sádado dia 19, rendeu as gravações de "Stones In My Passway", "I’m A Steady Rollin’ Man" e "From Four Till Late".
A última e derradeira sessão de gravação na vida de Robert Johnson rendeu bastante material. Realizado no domingo no dia 20 de junho de 1937; Johnson grava "Hellhound On My Trail", "Little Queen Of Spades", "Malted Milk", "Drunken Hearted Man", "Me And the Devil Blues", "Stop Breakin’ Down Blues", "Traveling Riverside Blues", "Honeymoon Blues", "Love In Vain" e "Milkcow’s Calf Blues".
No todo, Robert Johnson gravou um total de 29 canções embora há um boato de que uma trigésma canção teria sido gravada por insistência do engenheiro de som. Se existe, até o presente, nenhum vestígio dessa canção foi encontrado.
O primeiro compacto a surgir das sessões, lançado pelo selo Vocalion (depois comprada pela CBS que por sua vez seria comprada pela Sony Music) foi "Terraplane Blues" / "Last Fair Deal Gone Down", que muitos consideram o único hit do Johnson, com o compacto vendendo 4 mil cópias. Considerando o mercado fonografico da época, acoplado com o custo de vida durante a depressão dos Anos Trinta, o número é relativamente bom. O que se sabe é que Don Law tinha interesse em voltar a gravá-lo. Apesar de outros compactos serem lançados antes dele falecer, aparentemente este é o único disco seu que Johnson ouviu em vida. Conta-se que ele ficou tão feliz que comprou várias cópias para dar de presente a parentes e para cada um de seus filhos, embora muitas vezes ele fosse proibido de se aproximar deles. Há pelo menos um relato, contado por Claude Johnson, seu único filho comprovado e reconhecido legalmente, que diz que Robert Johnson não foi permitido pelos avós que o criaram, a passar pelo portão da frente da casa, enquanto ele, Claude, só pôde vê-lo pela fresta atrás da porta. Isso por conta de Robert Johnson ter feito um pacto com o diabo. “E essa foi a única vez que eu vi o meu pai.”
Tocando pelas esquinas do mundo afora, quando alguém pedia "Terraplane Blues", Johnson se enchia de orgulho e informava com um sorriso de orelha a orelha, que ele foi quem compôs esta canção. Analisando as gravações, se pode ouvir em Robert Johnson as influências de um número de importantes bluesmen, como os já falados Charley Patton, Son House, Willie Brown, Tommy Johnson e Lonnie Johnson; como também de Kokomo Arnold, Scrapper Blackwell, Hambone Willie Newbern, Leroy Carr, Big Bill Broonzy e Skip James. Embora não existam gravações que documentem a proeza de Ike Zimmerman, é óbvio que esse foi para Robert sua influência mais direta.
Johnson como instrumentista é capaz de fazer duas coisas diferentes quase que seguidas uma da outra, o que dá a sensação nas gravações de existirem duas pessoas tocando, não só uma. E como se isso não fosse o bastante, Johnson consegue cantar por cima disso tudo, o que deixa músicos mais estudiosos extremamente impressionados. Comparando Johnson com seus maiores mentores, percebe-se que está no tratamento dado por Johnson a suas canções e seus arranjos a marca de sua genialidade. Conciso, consegue compor um tema completo com duração nunca superior a três minutos, perfeito para o formato de discos (então existentes apenas com 78 rpm). Trouxe para os seus arranjos o baixo de boogie-woogie, normalmente associado somente ao piano, nunca no violão. Enquanto era comum nas letras em blues da época ficarem com resoluções um tanto quanto abstratas, as melhores letras de Johnson oferecem uma estória completa com inicio, meio e fim. E para coroar tudo, Johnson também tem uma voz muito boa, donde ele extrai tanto força, como ternura.
No calor do verão de Mississippi, no dia 12 de agosto de 1938, Robert Johnson e David ‘Honeyboy’ Edwards estavam marcados para tocar naquela noite, em uma loja de conveniências não muito longe de Greenwood, chamada Three Forks, que à noite faziam festas pro povo local ouvir e dançar. Segundo Honeyboy Edwards, Robert Johnson estava claramente mostrando demasiada atenção a uma mulher acompanhada de um homem que muitos acreditam se tratar do dono da loja. Outra versão sugere que a tal mulher era uma antiga namorada de Johnson que, de volta na área, queria requentar o romance.
No dia seguinte, antes de Honeyboy chegar, Robert Johnson e Sonny Boy Williamson II (Rice Miller) dividiam uma mesa e conversavam. Williamson testemunha que Johnson estava de olho na mulher do patrão e que alguém, possivelmente a própria mulher, lhe trouxe uma garrafa aberta de whiskey caseiro (Moonshine). Johnson aceitou e bebeu apesar de avisos de nunca beber de uma garrafa que já chega aberta. Estavam tocando os três músicos quando por volta de uma da manhã, Robert Johnson começou a passar mal. O povo queria que o músico continuasse mas lá pelas duas da matina Robert estava tão mal que teve que ser levado embora. Trouxeram-lhe até seu quarto em um barraco na 109 Young Street onde estava hospedado em Greenwood. Johnson passou três dias em agonia com terriveis dores estomacais, finalmente morrendo no dia 16 de agosto de 1938. Uma versão da estória sugere que ele conseguiu sobreviver ao envenenamento, que saiu pelo suor, mas por conseqüência pegou pneumonia e morreu. Seu atestado de óbito diz ‘Causa de Morte: Nenhum Doutor (No Doctor).’
Robert Johnson foi em seguida enterrado no cemitério junto à igreja Mt. Zion Missionary Baptist Church perto de Morgan City, segundo consta em seu atestado de óbito. A Columbia Records em 1990 ergueu um pequeno obelisco como memorial a Johnson no local. Todavia, há quem diz que Robert Johnson não permaneceu enterrado neste local por muito tempo. Supostamente uma das suas irmãs retirou seus restos dali e o levou a Payne Chapel Missionary Baptist Church perto de Quito, Mississippi. Lá também foi colocado um marco, desta vez uma placa, para marcar o local. Todavia, ainda há suspeitas que seu corpo na verdade fora enterrado junto a uma árvore dentro do cemitério da igreja de Little Zion localizada ao norte de Greenwood junto a Money Road. Neste local também existe um marco homenageando Robert Johnson, dessa vez pago pela Sony Music.
O legado de Robert Johnson é enorme, embora tenha levado muitos anos após sua morte para sua influência ser realmente contabilizada. Muddy Waters e Elmore James são apenas dois nomes que imediatamente vêm à mente como demonstrando em suas gravações as lições aprendidas com Robert Johnson. Contudo, ele só se tornaria realmente famoso depois dos anos sessenta quando os roqueiros o adotam. Em 1961 a CBS lança pela primeira vez um LP com desesseis de suas canções com o titulo Robert Johnson – King of the Delta Blues Singers, que vai ser ouvido e absorvido por gente como Brian Jones, Keith Richards, Eric Clapton, Paul Butterfield, Duane Allman e Johnny Winters, efetivamente contribuindo para dar início ao interesse maior pelo blues entre os jovens brancos americanos e, na Inglaterra, para o nascimento do movimento de blues inglês. O volume 2, com o restante das gravações mais algumas versões alternativas, seria lançado em 1971.

Three Forks Store
Somente em 1990, após anos de litígio sobre direitos autorais (que desde 1998 pertencem ao filho e herdeiro comprovado Claude Johnson), lança-se finalmente a caixa completa com todas as suas gravações existentes, mais duas fotos, as únicas conhecidas de Robert Johnson. Hoje já apareceu uma terceira, com Robert Johnson ao lado de Johnny Shines, encontrada com uma das irmãs de Johnson que ainda estava viva. Especula-se que podem ainda haver outras fotos por serem descobertas.
Passados os últimos vinte anos, o nome de Robert Johnson se torna um meio de ganhar dinheiro. Criaram fundações com seu nome, vende-se camisetas, posters, palhetas e sabe-se lá mais o que; tudo com o nome, imagem e até a assinatura (tirada da certidão de casamento) de Robert Johnson. Ele é atualmente o bluesman que mais gera dinheiro em merchandising dentro dos Estados Unidos, muito além do que qualquer outro bluesman americano atualmente vivo. Talvez mais importante do que isso seja que não só a lenda, mas agora a música de Robert Johnson persiste em encantar os ouvintes. E a julgar pela consistência de novas versões gravadas por novos artistas a cada ano, a música de Robert Johnson continuará vivendo saudavelmente entre as novas gerações que continuamente surgem.
Robert Johnson jamais poderia imaginar tamanho sucesso.
Estrada abandonada que leva para Tree Forks Store



segunda-feira, 18 de abril de 2011

“I got a thing about Blues.” – Por Mariana Diamond.


“I got a thing about Blues.” – Por Mariana Diamond.


Não sou mais do que um filisteu nesse assunto de blues: tenho um único cd da
Ella Fitzgerald.
Existe em mim porém uma enorme atração por esse tema que nem eu mesma consigo compreender. Golpes do destino?! Sempre sou levada ao sul onde nasceu o blues.

Tudo começou com o Coração Satânico “Angel’s Heart(1987)” do Allan Parker. Havia um guitarrista de blues nesse filme, um tal de Toots Sweet. E foi quando vi "o blues" pela primeira vez. Digo, pela primeira vez escutei o termo blues e prestei atenção.

E o que sei sobre ele é basicamente isso: é tão triste quanto "Mississipi
em Chamas" “Mississippi Burning (1988)” do mesmo Allan Parker. É como saber
que o casamento entre negros e brancos deixou de ser crime no estado do
Alabama somente em 1984. É como ler o poema “Ballad of Birmingham” do
Dudley Randall pela primeira vez.

Algo que aprendi é que as coisas não necessariamente precisam ser bonitas
para serem tremendamente valiosas. É assim com qualquer tipo de Arte. E é
assim também com esse tipo de música.

Como disse antes, não clamo ser uma ouvinte fiel(na verdade prefiro a melancolia do darkwave ou post-punk revival) mas o que me encanta no Blues é essa atemporalidade das histórias e a natureza da voz que as conta.
É talvez a música com "mais" alma que eu já tenha escutado.

Há algo de incômodo e visceral nesse gênero musical. Algo poderoso. Não é uma mera coincidência a paixão da dor ser o maior ícone religioso que já existiu, a paixão da dor é uma coisa maior e mais intensa.
É dessa maneira que o blues atravessa diferenças abismais entre universos e universos e se torna querido e inteligível: porque todos nós conhecemos algo de dor.

O ser humano é um animal triste.

Gosto de contar aos meus alunos de inglês que in English a cor azul quer dizer melancolia e tristeza. A cor azul na nossa língua tem um valor semântico completamente diferente: "tudo azul" quer dizer tudo lindo e calmo.

"I've got the blues" é uma exclamação de um estado de enfermidade. Sofrendo uma dor na alma. Essa dor,no caso, é algo incontrolável e sôfrego, assim como a turbeculose. Uma crueldade da vida. E é exatamente essa dor personificada em algo-quase palpável- que dá nome ao estilo musical: Blues.  

Ainda assim, como uma língua alienígena, uma época diferente, um contexto social totalmente díspar pode ser tão tocante? Qual é essa verdade dos negros sulamericanos que nos é tão reconhecível? Talvez a resposta esteja na beleza que provém das coisas mais tristes. Talvez na universalidade dos sentimentos. Talvez nós brasileiros saibamos algo sobre marginalização e injustiças. E dessa maneira, o blues nos une como exemplares de uma mesma espécime. Mesmas angústias, mesmos conceitos universais e flutuantes. E se isso não é doce, não sei o que mais seria.

É bom não se calar. É bom fazer nascer de uma perda, de um trauma, de uma injustiça, uma voz que grita eternamente. A arte é, em alguns pontos, uma redenção espiritual. E todas as suas formas são apenas variações de uma única coisa.
Por isso quero dividir o poema do Randall com vocês. Ao meu ver, se outrora escrito com uma escala específica de notas, as palavras não seriam o tom. O tom seria o do blues:

Dudley Randall
(1914-)
Ballad of Birmingham
(1969)
(On the bombing of a church in Birmingham, Alabama, 1963)
(Sobre o bombardeio de uma igreja na cidade de Birmingham)

"Mother dear, may I go downtown ( "Mãe querida, posso ir para o centro)      
Instead of out to play, (ao invés de brincar lá fora)
 And march the streets of Birmingham (e marchar nas ruas de Birmingham)
In a Freedom March today?"(na Marcha pela Liberdade, hoje?")

"No, baby, no, you may not go,("Não, meu bem, não, você não pode ir)
For the dogs are fierce and wild, (porque os cães estão incontroláveis e violentos)
And clubs and hoses, guns and jails (e cacetetes e algemas e armas e cadeia)
Aren't good for a little child."(não são bons para uma criança pequena")

"But, mother, I won't be alone. ("Mas, mãe, não estarei sozinha)
Other children will go with me, (outras crianças irão comigo)
And march the streets of Birmingham (e marcharão pelas ruas de Birmingham)
To make our country free."(para de nosso país um país livre)

                     "No, baby, no, you may not go,(Não, meu bem, não, você não pode ir)
For I fear those guns will fire. (porque temo essas armas dispararem)
But you may go to church instead (ao invés disso você pode ir na Igreja)
And sing in the children's choir."(e cantar no coro das crianças)

She has combed and brushed her night-dark hair, (Ela penteou e escovou seu cabelo negro como a noite)
And bathed rose petal sweet,(e se banhou com doces pétalas de rosa)
And drawn white gloves on her small brown hands, (e vestiu luvas brancas em suas mãozinhas morenas)
And white shoes on her feet.(e sapatos brancos em seus pés)

The mother smiled to know that her child (A mãe sorriu ao pensar que sua filhinha)
Was in the sacred place, (estava em um lugar sagrado)
But that smile was the last smile (mas foi o último sorriso)
To come upon her face(que ela colocaria em seu rosto)

For when she heard the explosion, (Porque quando ela escutou a explosão)
Her eyes grew wet and wild. (seus olhos ficaram molhados e enlouquecidos)
She raced through the streets of Birmingham (ela correu pelas ruas de Birmingham)
Calling for her child.(chamando sua filhinha)

She clawed through bits of glass and brick,(Ela cavou dentre os estilhaços de tijolos e vidro) 
Then lifted out a shoe.(e encontrou um sapato)
"O, here's the shoe my baby wore, ("Oh, aqui está o sapato que minha querida filhinha usava)
But, baby, where are you?"(Mas, meu bem, onde está você?")

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Mulheres Bluseiras!!!


Mulheres Bluseiras

A mulher é sem dúvida a causa “maior” das inspirações de poetas, pintores, músicos em geral, e porque não dizer para os bluesman? O que poderíamos falar do blues? Certamente que é a forma de expressão musical que demonstra dentre outras coisas a angustia, melancolia e tristeza de um cantor... E uma das causas desta tristeza, com certeza é a criação máxima de Deus, a mulher! Não falta blues que fala de um homem que teve um amor não correspondido, ou um amor que se foi, canções sobre mulheres sejam elas o grande amor, uma prostituta que “sabe se mexer”, a cafetina boa praça, ou até a própria mãe.
            Como todos sabem o que mexe com a imaginação de todo homem é: mulheres, carros e dinheiro. Mas, quando o assunto é homem que gosta de música entra nesse grupo o item quatro chamado instrumento musical. Como nosso assunto é blues, não há nada mais interessante para um amante deste estilo do que... Mulheres que tocam blues!
            Não vou entrar no básico, afinal, todos conhecem as histórias de Bessie Smith, Koko Taylor (de quem eu adotei a frase “Blues sem frescura e sem tapeação”), Janis Joplin e tantas outras. Eu quero falar de mulheres interessantes que tocam blues de primeira qualidade e são guitarristas profissionais, e respeitadíssimas no mundo “masculino do blues”.
            Você já imaginou uma blueswoman rodando o sul dos EUA, viajando de carona, tocando para comer, dormindo ao relento e etc.? O blues feminino não é esse! Ele tem mais glamour, mas, não menos importante e interessante! Ele conta historias de grandes cantoras e como elas viveram e sobreviveram em cabarés, teatros e como eram prestigiadas! Totalmente diferente da imagem de vagabundo errante e descompromissado que carrega o bluesman! E a sua importância é tanta que existe uma tese de estudo americana (infelizmente não me lembro o nome da Universidade, e pra ser sincero... não estou disposto a procurar!) que defende a criação do blues sendo obra das mulheres!!!
            Agora dá pra imaginar um Steve Ray Vaughan de saias? Uma Muddy Waters? Uma Jimi Hendrix? Isso dá! Não só dá como existe, e te digo... Os marmanjos além de amá-las como mulheres belas e sensuais... Também as admiram (com todo mérito próprio, claro!) como guitarristas! E digo mais! Elas põem muitos machos no chinelo como instrumentistas!
Então vamos falar de poucas só para dar água na boca!

Erja Lyytinen: esta finlandesa está arrebentando lá no Europa com a sua slideguitar! Sim, temos uma garota bela que arrasa no slide, técnica usada por mestres como Johnny Winter, Muddy Water, Rory Gallagher, Ry Cooder, e outros. E você acha que é um belo rostinho empunhando uma guitarra? Belo rostinho sim, mas, olha o curriculum da moça:
- O segundo álbum de Erja,  “Wildflower” , que ela também co-produziu, foi oficialmente lançado em Junho de 2003 em um dos maiores festivais da Finlândia, o Puistoblues, onde abriu shows para Koko Taylor e Bonnie Raitt.
- Em 2005 assina com a Ruf Records (Alemanha) e imediatamente foi para os EUA para colaborar em um projeto com os artistas de blues inglês Ian Parker e Aynsley Lister. O resultado, o álbum  “Pilgrimage” , foi um enorme sucesso e levou-os a turnês nos EUA e Europa, assim como à gravação do DVD  “Blues Caravan 2006 - The New Generation” .
- Erja retornou aos EUA em 2006 para gravar seu primeiro álbum solo pela Ruf Records,  “Dreamland Blues” , tendo no time de músicos David e Kinney Kimbrough (filhos do falecido e lendário músico do Mississippi, Junior Kimbrough).
- Hoje é classificada como a quarta melhor slideguitar da Europa (sem distinção de gênero masculino ou feminino)!
Deborah Coleman: Coleman nasceu em 03 de outubro de 1956, em Portsmouth, Virginia, em uma família de músicos.
- Em sua carreira ganhou o Prêmio Orville Gibson de "Melhor guitarrista de blues, Feminina" em 2001, e foi nomeada para o WC Handy Blues Music Award nove vezes! O WC Handy é o mais importante prêmio da música no mundo do blues! Só a indicação de um ano para qualquer categoria já te põe na história do blues, imagine nove vezes? Ela então se tornou um dos mais requisitados artistas do blues em estúdio e acompanhamento!
- Seu trabalho tem sido comparado por especialistas no assunto como um cruzamento entre Jimi Hendrix e Tracy Chapman.
- Ela é conhecida pela sua alta energia, e carismática em suas performances ao vivo. Sempre presente em grandes festivais internacionais de blues e sempre como destaque. Podemos citar os festivais do Atlântico Norte Blues Festival 2007, Waterfront Blues Festival 2002, Monterey Jazz Festival de 2001, Ann Arbor Blues and Jazz Festival de 2000, Sarasota Blues Festival 1999, a San Francisco Blues Festival 1999, Fonte Blues Festival 1998, e outros.

Sue Foley. Esta loira nasceu em 29 de março de 1968, Ottawa , Ontário , Canadá. Foley começou a escrever e tocar profissionalmente em 1984.  
- Sua carreira começou primeiro em Ottawa , no Canadá, na idade de dezesseis anos, onde, além do trabalho solo, ela cantou com o cantor John Revue.  Foley enviou uma demo tape de si mesma para Clifford Antone s label '(diretor da Antone's Records) em 1990. Impressionados, a gravadora conseguiu uma audição para o guitarrista. Contratada ela se mudou para Austin, Texas.
- Desde então ela tem gravado dez discos , pela Antone's Records e pela gravadora Shanachie Records. Ela passou mais de 14 anos na estrada como líder de banda , vocalista, guitarrista e gerente de sua própria banda.
- Além de turnê própria, ela também dividiu o palco com músicos fundamentais para o blues, como o Back Alley John , BB King , Buddy Guy e John Lee Hooker .
- Em 2000, Foley ganhou um Juno Award de Melhor Álbum de Blues por Love Comin 'Down.
- Já esteve no Brasil em 1995 para o Festival Nescafé and Blues.

Ana Popovic – Ana é um monstro (no bom sentido da palavra é claro!)! Imagine o cruzamento de uma Angel da Victoria Secrets com... Steve Ray Vaughan!!!! Eis que o mundo do blues apresenta Ana Popovic! Uma garota sensual, bela... E que toca muito bem a sua guitarra!
A primeira coisa que nos chama atenção em Ana é a sua beleza, que não está só na aparência, reside também na guitarra! E todo o universo blues se rende a essa loirinha quando ela sobe no palco e destila o seu venenoso blues! Não acredita? Dê uma olhada no curriculum da moça:
- Em outubro de 2000, Ana viaja para Memphis para gravar seu primeiro album, já pela Ruf Records.
- No mesmo ano Ana reune vários artistas, incluindo Bernard Allison, Eric Burdon, Walter Trout, Popa Chubby, Jimmy Thackery, Taj Mahal e Buddy Miles em um CD tributo a Jimi Hendrix, o 'Blue Haze ". Sua contribuição é uma versão de Hendrix 'Belly Button Window.
- Em 2001, Ana aparece como "convidada especial" na turnê de Bernard Allison.
- Em 2002 Ana faz parte da União Europeia 'Jimi Hendrix Tribute Tour "com o mestre Walter Trout . Ela também recebe três indicações para o Blues Awards 2002 na França: 'Melhor Cantor', 'Melhor Guitarrista e Melhor Álbum.

- Em 2003 Ana retorna a Memphis e grava seu segundo álbum pela Ruf Records. Metade do álbum foi produzido mixado pelo gigante dos estúdios de blues David Z (Prinz, Buddy Guy, Jonny Lang). Ana recebe uma nomeação na prestigiada WC Handy Awards, em Memphis, para Best New Artist de 2003 (o único artista do continente europeu já nomeados nesta categoria).
- O ano também vê Ana como endorser das guitarras 'Fender' e cordas 'DR artesanal "pela primeira vez. Durante o "Rhythm & Blues Fest 'em Peer, Bélgica, Ana é convidada para o palco pelo" O Rei do Soul ", Solomon Burke, que logo a convida para acompanhá-lo como uma convidada especial para o resto de sua turnê.

- Em 2004 Ana torna-se endorser da Ovation Guitars. Junto com sua banda, ela ganha o prêmio de prestígio jazz em Juan Le Pins, França
- Em 2006 Ana é convidada para o lendário "Blues Cruise 2006" - Ela é a primeira artista da Europa a sempre ser chamada para participar deste cruzeiro de prestígio com a sua banda. Em Fevereiro Ana é nomeada como a '"Blues Artist of the Year " pelos leitores da  BluesWax Magazine. Outros candidatos foram Tab Beniot e Joe Bonamassa. Em julho Ana recebe 4 indicações para o Living Blues Awards 2006. Ela é selecionada nas categorias  'Melhor DVD de blues de 2005', 'Melhor Intérprete Live', 'Melhor Artista Feminina Blues' e 'Mais notável músico (guitarra)
- Em 2009 Ana tem a grande honra de dividir o palco com BB King
- Em 2010 Ana é nomeada para o British Blues Awards.
E então? Temos que tirar o chapéu para as mulheres no blues, que definitivamente dominou um ato que era puramente masculino, o ato de tocar guitarra. E o dominou com maestria deixando orgulhosos os grandes mestes do blues, que um dia empunharam este instrumento sagrado! Mulheres que vivem de suas guitarras, que fazem um blues fantástico e nos encantam em todos os sentidos!
Um brinde as mulheres e as suas guitarras!


segunda-feira, 4 de abril de 2011

Há Dez Anos...

Há dez anos...
Eu vivi o blues como ele é!
Vi a solidão e angustia...
Que você vivia também.
Há dez anos...
Na noite eu ouvia o blues
Durante o dia você era o blues!
Nada falei, só um sorriso esbocei!
Há dez anos esse sentimento era mútuo!
Quieto, calado, mas, vivo...
Como o blues!
Esse blues eu não gosto!
Me faltou coragem! Não faltou vontade!
Você me contou várias vezes o seu blues!
E eu...
Me faltou coragem...
O blues não se guarda! O blues se fala!
Se há dez anos eu tivesse falado...
Meu blues hoje seria diferente!
Hoje o blues é de saudade!
Poderia ser de paixão!
Mas, é só de saudade!
Não a vejo há...
dez anos!
Aquele blues eu ouço...
há dez anos!
Se eu pudesse te falar hoje
Eu tocaria esse blues:
“Há dez anos eu vivi o blues como ele é!”

terça-feira, 29 de março de 2011

Flavinha - O Blues de uma Autêntica Rebelde!

Cá estou eu escrevendo para vocês à convite de um grande amigo,  o Dr. K.
E nada melhor para falar de blues quando se está ouvindo blues. Escolhi como trilha sonora um clássico dos clássicos, “Hoochie , Choochie Man” de Muddy Waters.
Blues não pode ser definido como um estilo musical. Fica muito pobre essa definição diante de sua grandeza . Vai muito além; blues é visceral, é sentimento passional, é dor, é a lâmina afiada na carne, é o som da alma.
Eu conheci o blues por acaso. E o mais interessante,  foi através do rock’n’roll, lá por meados dos anos 90, quando entrei na adolescência. Foi ouvindo Led Zeppelin e The  Rolling Stones que me apaixonei pelas “baladas”, que depois vim a descobrir que eram influência do blues (e muitas delas regravações de clássicos).A música negra que encontrou como lar as terras  americanas até se espalhar pelo mundo tinha finalmente batido à minha porta.
E não foram só eles que adotaram essa fusão de rock e rhythm and blues. Assim como é difícil filosofar sobre quem veio primeiro, o ovo ou a galinha, é difícil saber onde um ritmo virou o outro tamanha a intimidade entre eles. A única certeza que temos é que até hoje eles andam juntos e misturados, como num grande caldeirão musical.
Resolvi  ler e conhecer a história do  blues e surgiu meu interesse por esse estilo que até então eu não havia me dado conta de sua beleza. Comecei  ouvindo  compositores assim, digamos... mais palatáveis, mais acessíveis ao grande público,  como todo aprendiz:  BB King , Eric Clapton, Gary Moore.
Não foi suficiente. Meu interesse cresceu sobre o assunto e descobri um mundo ainda mais profundo no blues.  Willie Dixon, Muddy Waters, John Lee Hooker, Buddy Guy.  Diversas linhas dentro de um mesmo grande estilo. A voz rouca, potente, as gaitas, piano e guitarra acústica. O gingado, o swing. Definitivamente ninguém faz blues como eles fazem!
blues nessa época foi meu companheiro de fossa e também de diversão. 
Quer coisa melhor do que afogar as mágoas ouvindo um choroso som? Quem nunca derramou lágrimas pensando no amor não correspondido enquanto ao fundo tocava “I can’t quit you, baby” de Willie Dixon ???
Ou se arrumar para sair curtindo uma levada rock’n’roll? Daquele tipo “Shake it for me” de Howlin’ Wolf? Impossível ficar parado diante de tanto ritmo!

Esse é o grande segredo do blues, ele se encaixa em todas as situações de sua vida que precisarem de trilha sonora, sua melodia é atemporal e onipotente.
E só os negros que mandam bem no blues? Difícil imaginar outra etnia conseguindo alcançar o caminho da alma como eles conseguem. É um privilégio deste povo sofrido, que foi cruelmente escravizado e ainda assim presenteou o mundo com tão eloqüente ritmo.
Clapton e Stevie Ray Vaughan  talvez sejam os brancos “blueseiros” mais conhecidos pelo grande público, mas eu arrisco colocar ainda mais um nome nesta lista.  
Eu o considero como um dos melhores bluesman que já existiram .
Seu nome é Nuno Mindelis. Além de sua competência na guitarra, ainda tem outro grande mérito: adotou o Brasil como pátria e se revelou ao mundo nessa condição. Brasileiro também faz blues e mostra ao mundo que não é pouco! Um motivo de orgulho e tanto para nós!
Atualmente tenho ouvido muito um carinha que se chama Tom Waits. Embora seu estilo não fique restrito ao blues, muitas de suas obras flertam com a sonoridade da música negra que fica difícil definir seu estilo. Mas dá para sentir a inspiração do blues e do jazz.
Ainda sou iniciante nessa arte. Espero aprender muito com Dr. K e suas postagens formidáveis ! O blues revelou meu lado masculino (sim, é um plágio de Dr. K!)  e desde então ele não quer mais adormecer!
Me despeço ao som de “Cocaine” de Eric Clapton
Espero que tenham gostado de minha estréia neste blog e agradeço ao Dr. K a honra de ter-me convidado! 


Flavinha (loustavernproject.blogspot.com)

terça-feira, 8 de março de 2011

A Balada de Bill Black Parte II


Contos do Blues
A Balada de Bill Black parte II

Bill agora com 13 anos freqüentava a igreja com a mãe e as outras famílias todos os domingos pela manhã, onde nunca prestava atenção no sermão do reverendo, até que um dia algo despertou sua atenção: as pessoas começavam a gritar palavras de confirmação e aleluias mais altas do que o normal, então ele parou para ouvir:
- Não podemos aceitar esta imoralidade em nossa comunidade, irmãos! – Bradava o reverendo – Isso é uma pouca vergonha! Aqueles que freqüentarem essa casa serão lançados no fogo do inferno! Aqueles que repudiam e se afastam do pecado é digno dos reinos do céu! – E aleluias mais altas foram ouvidas – Sodoma e Gomorra foram queimadas, assim será essa casa regida pelo diabo! – E mais aleluias – Cuidem de seus filhos e maridos, pois, temos um desafio em nossa frente, assim como Moisés! Não se desviem do caminho! Cantemos irmãos! – E o coral começou a cantar e toda a igreja acompanhando.
No fim da missa, todos saíram comentando sobre a tal casa das mulheres de vida fácil. Inclusive a sua mãe. Isso despertou um enorme interesse em Bill, que como um adolescente normal perguntou a sua mãe o que era.
- É a casa do diabo, meu filho! Lá só tem mulheres demoníacas, homens sem pudor e música do diabo! – Emma parou, olhou bem nos olhos do filho e disse – Me promete que você vai ficar longe de lá!
Bill olhos nos olhos da mãe, mas, a sua curiosidade ficou mais ativa. Porque a mãe está te pedindo para ficar longe? Música do diabo? Mulheres demoníacas?
- Promete Bill! – Emma sacudiu forte o braço do filho.
- Prometo mãe! – Falou Bill tirando o braço das mãos da mãe.
Anoiteceu, e como sempre fazia a noite, Bill se encontrou com Bukka e Paul atrás do pavilhão dos dormitórios, onde eles podiam ver as estrelas e conversar sobre o dia.
- Olha o que eu trouxe hoje! – Paul tirou de seu casaco surrado um tablete de tabaco para mascar, e um rolo de tabaco seco para cigarro.
- Oba! Dá-me um pedaço! – Bukka lascou uma mordida no tablete.
Paul olhou para Bill e percebeu que o amigo estava quieto demais.
- O que foi Bill? Que cara é essa? Mamãe te tratou como bebê hoje de novo? – Paul e Bukka caíram na gargalhada brincando com Bill.
Bill fez cara de reprovação, pegou o rolo de tabaco, e começou a fazer um cigarro de palha.
- Vocês já ouviram falar da casa do diabo? – Perguntou Bill olhando para o horizonte.
Bukka arregalou os olhos, cuspiu o tabaco e disse:
- Mamãe falou para ficarmos longe de lá!
- A minha mãe também! – Falou Paul.
- O que será que tem lá? – Perguntou Bill.
- O diabo, ora!!! – Falou Bukka se levantando.
Todos ficaram e silêncio, Bill acendeu o cigarro, e deu a primeira tragada, passando para Paul.
- Não.... - Falou Bill soltando a fumaça pelo nariz – Lá tem alguma coisa legal!
- Ta louco!!!! – Falou Bukka mordendo outro naco do tablete
Paul puxou o tablete de Bukka e observou o tabaco. – Bukka, não é assim que se masca! Já te ensinei! Isso não é chocolate! Você morde e fica com o pedaço na boca mascando! Você está desperdiçando o fumo! – Paul enrolou o tablete, e pegou o cigarro das mãos de Bill – Porque diz isso, parceiro?
Bill olhou para Paul e Bukka, e apontou para um grupo de cinco homens que passava lá na estrada.
- Eu ouvi dizer que os homens sempre vão nessa casa. E voltam sempre sorrindo e contando que dormiram como bebês a noite, que tal de Bia era muito boa, que a Marlene era legal...
- Tu ta querendo ir lá, Bill? – Perguntou Paul dando um trago no cigarro.
- Vamos lá dar uma olhada? – Falou Bill olhando fixo para o horizonte.
Bukka engoliu em seco, olhou para os amigos assustado...
- E se o capeta estiver lá? – Falou pegando o cigarro das mãos de Paul.
De repente Emma apareceu no início da construção e chamou Bill.
- Vem, Bill! Ta na hora do jantar!
Os garotos jogaram o cigarro aceso fora tentando não deixar Emma perceber que fumavam. Mas...
- Está com essa porcaria na boca de novo, moleque? Passa já pra dentro! – Bradou Emma.
Bukka e Paul saíram correndo na direção oposta em que Emma caminhava para repreender Bill. Mas, antes deles saírem Bill cochichou para os amigos:
- Amanhã aqui as 20:00 h! Nós vamos lá à casa do capeta!
A ansiedade dos garotos foi tamanha que às 19h30min h do dia seguinte todos já estavam no local combinado. Paul descobriu com um dos trabalhadores o endereço da casa do capeta e o nome real de lá: Tia Marlene Barrelhouse.
- Isso fica do outro lado da cidade! – Reclamou Bukka.
- Então vamos, poderemos chegar lá antes das 21h00min! – Falou Bill começando a andar.
Os garotos caminharam até o local que ficava no subúrbio de Clarksdale. A casa era a única no meio da estrada, era muito grande, parecida com um galpão adaptado, tinha uma varanda enorme que cobria os três lados do estabelecimento, grandes janelas de madeira. Na entrada tinha um homem negro muito grande e forte vestindo um terno surrado e um chapéu não menos tratado, que controla quem entrava e saia, às vezes entrava no estabelecimento e voltada segurando algum homem pela camisa, o soltava bruscamente no pátio em frente, e dizia alguma coisa asperamente para o expulsado. Depois voltava para a porta do estabelecimento.
Do lado de fora dava para ouvir música acelerada tocada por uma banda com piano, alguns metais e um contra baixo. As pessoas gritavam e conversavam, e ouviam-se muitas gargalhadas. A luz do lugar era à base de diversas lamparinas espalhadas por todo o recinto.
- No inferno está tendo festa? – Perguntou intrigado Bukka – O reverendo falou que no inferno só tem dor e lamúria!
Bill olhou fixamente para a casa e falou:
- Não me parece o inferno, olha como tem gente... Hei... Aquele que está entrando não é o dono do armazém da cidade? – Apontou para um grupo de três homens que estava entrando na casa, foram barrados pelo gigante na porta que recebeu duas notas de dinheiro que não foram identificadas, e entraram no lugar com os cumprimentos do grande homem na porta.
- Hiii, olha lá o barbeiro senhor Wilson! – Falou Paul apontando para outro grupo de homens entrando.
Os garotos entreolharam-se e encararam o grande galpão mais uma vez. E enquanto o tempo passava mais alta a musica e as risadas ficavam.
- Vamos entrar! – Chamou Bill puxando os amigos.
- Eu não!!! - Falou Bukka dando um passo para trás. – Lá dentro ta o pemba!!!
Bill puxou Bukka pela mão e disse:
- Vamos lá, ta todo mundo entrando! Ta todo mundo rindo! Vamos ver o que tem lá!
Bukka cedeu ao amigo e os três foram caminhando até porta, em direção ao gigante porteiro. Quando chegaram à porta o gigante parou em frente dos garotos e cruzou lentamente os grandes braços. Os garotos imediatamente pararam. Bukka ficou atrás dos amigos. E o gigante disse com uma forte foz e feições sérias.
- O que fazem aqui moleques?
- Nós queremos entrar! – Falou Bill olhando para o homem.
O porteiro ficou calado olhando para os garotos, e de repente soltou uma gargalhada forte, que os assustou.
- Vocês sabem o que tem aqui dentro? Falou o homem se divertindo com a ingenuidade dos meninos.
- Aqui é o inferno? Perguntou Bill olhando para o homem.
O porteiro soltou outra gargalhada mais forte e soltou os braços.
- Não, garoto! Aqui é o Paraíso! – Se divertindo o homem se apresentou – Eu sou o Big Norton, o porteiro e Leão de Chácara! – Estendeu a mão para Bill em um cumprimento.
            - Eu sou o Bill, este é Paul e aquele é o Bukka! – Falou Bill cumprimentando o homem. – Podemos entrar? Queremos ver o que tem aqui!
            Big Norton gargalhou de novo.
            - Amiguinhos, não posso deixá-los entrar! Não têm idade para verem o que tem aqui!
Então Bill pegou um cigarro de palha do bolso e mostrou ao porteiro.
- Não sou criança! Já sei fumar!
Big Norton de tanto rir recostou se na parede.
            Dentro do lugar as pessoas ficaram em silêncio, e uma voz de longe falou alguma coisa sobre o grande músico que iria se apresentar agora, e em seguido ouviu-se um longo aplauso e novamente silêncio.
            - O que está acontecendo? – Perguntou Bill.
            - Eu gostei de vocês! Querem dar uma espiada? Agora vai se apresentar um grande tocador de blues! Seu nome é Crazy Dog Murphy! – Perguntou o porteiro abrindo um pouco a porta e deixando os três garotos se aproximarem.
            Bill foi o primeiro a olhar e o que viu... Nunca mais sairia dele. Era no fundo um palco de madeira em que um negro bem vestido em um terno de bom corte com um chapéu muito elegante, tocando um violão, o lugar era cheio de mesas e cadeiras, todas tomadas por diversas pessoas, à maioria homens. Tinha diversas mulheres, a maioria com parte das roupas apenas, umas sentadas nos colos dos homens, outras abraçando outros homens, umas sentadas em cima do balcão, que era enorme e ficava do lado esquerdo. Deu para ver o segundo andar, que tinha um mezanino com várias portas de quartos. Tudo chamou a atenção... mas, a música marcou Bill.
            - Que música é Big? – Perguntou Bill
            O gigante sorriu e disse ao garoto.
            - Isso se chama blues, amiguinho!
            Bill ficou perplexo com o músico, sua voz, suas roupas, a admiração das pessoas por ele... o lugar que fervia de energia e alegria, coisa que ele poucas vezes viu... e a música... bela...contagiante.
            - O blues te pegou? – Perguntou Big Norton.
Bill não respondeu, continuou a prestar atenção ao lugar e a música.
Então o porteiro fechou a porta.
- Nos deixe entrar Big! – Implorou Bill.
- Não posso garotos! Aqui criança não entra! – Big cruzou os braços novamente – Quando forem maiores terei o prazer em abrir estas portas para vocês, mas, agora não!
- E a música, Big? – Perguntou Bill.
- É o blues, garoto! Essa é a nossa música, música preta, música boa! – Falou Big sorrindo. – Agora vão para casa! Tenho que trabalhar, as meninas da tia vão subir no palco depois do Crazy Dog, e os homens já estão bêbedos! Vão para casa!
Os garotos voltaram para a estrada. Mas, o lugar, o ambiente e a música não saíram do imaginário de Bill.
Continua...